22/02/09

Rio Congelado

Em qual atriz você pensa quando pensa no filme 21 Gramas? Naomi Watts? Charlote Gainsbourg (whatever her name is)? Bem, eu penso na Melissa Leo, que interpreta a esposa do Benicio Del Toro e, com pouco tempo na tela, deixa uma puta marca. Anos depois, fiquei feliz em vê-la novamente em Três Enterros, mas faltava ter a chance de assistir um filme que fosse realmente dela. Esse filme é Rio Congelado, vencedor do Festival de Sundance de 2008, dirigido e escrito por Courtney Hunt, uma moça muito talentosa que batalhou por financiamento por três anos e teve apenas 21 dias para filmar essa que é uma das histórias mais comoventes, se não for a mais comovente, que eu vi recentemente.
O filme começa com uma tomada muito bonita do rio congelado do título, depois passa para a apresentação da personagem principal, Ray, que está sentada em um carro, fumando e chorando. A câmera vai passando pelo roupão rosa que ela está vestindo, pelo esmalte corroído nas unhas, pelas rugas que ela tem nos olhos e pelo porta-luvas do carro, aberto. Era ali que, há meses, ela guardava dinheiro para comprar um trailer melhor para morar com a família. Mas naquela noite, a uma semana do Natal, o marido viciado em jogo pegou a grana e sumiu. O filho mais velho, de 15 anos, se revolta com a situação da família e com o fato de a mãe não o deixar trabalhar. O mais novo, de 5, chora ao ver que a casa nova que lhe prometeram, não vai mais chegar.
Desesperada para conseguir a casa, comprar um presente de natal para os filhos e colocar alguma outra coisa que não pipoca e Tang na mesa, a Ray busca algumas alternativas, como trabalhar mais horas em uma loja de conveniência. Mas é quando conhece Lila, uma índia que traz imigrantes ilegais do Canadá para os Estados Unidos, que ela encontra uma forma de ganhar dinheiro. As duas não se gostam, mas fazem o trabalho juntas: cruzam um rio que, naquela época do ano, está congelado, com imigrantes no porta-malas do carro. São operações bastante tensas, algumas complicações acontecem e, de certa forma, é possível dizer que Rio Congelado é um thriller. Mas, mais do que isso, é uma história sobre duas mulheres que descobrem ter muito em comum e que lutam para sobreviver em meio a uma pobreza que poucas vezes eu vi ser retratada em filmes americanos. E DIGO MAIS: em tempos de crise econômica e desemprego recorde nos Estados Unidos, essa história ganha ainda mais relevância, e por mais que uma ou outra cena pudesse ser melhor resolvida (há um momento em especial que eu achei bastante inverossímil), é difícil não sair do cinema meio impactado com aquele mundo e aquelas pessoas.
E, principalmente, é muito difícil não sair do cinema impressionado com a Melissa Leo, que da primeira à última cena dá um verdadeiro show. Ela te convence que realmente é aquela mulher dura, marcada pelas dificuldades, mesmo nos mínimos detalhes. Uma cena, em especial, é fantástica, quando ela está passando rímel, tentando se dar ao luxo de ter um único momento de vaidade naqueles dias tão difíceis, mas começa a chorar e borra toda a maquiagem. Parece uma coisa meio boba, mas nossa, é tão bonito, e ela faz tão bem, com tanta naturalidade, e por ser tão real aquilo fica ainda mais triste. Hoje à noite, no Oscar, ela deve perder a estatueta para a Kate Winslet, o que é uma pena. Não só porque a Melissa Leo está infinitamente melhor, mas porque um Oscar poderia impulsionar a carreira dela e, quem sabe, nos dar mais chances de vê-la em papéis à altura do seu talento.

1 comentários:

Anônimo disse...

Pois é, Lui, você acertou: ganhou a Kate Winslet, que virou arroz de festa das produções oscarizáveis, e perdeu a atriz que continuou apenas atriz. Nada de novo, não é?